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Parque
Nacional da Lagoa do Peixe
Publicado na Revista Terra - Editora Peixes Por Cristina Degani e Gustavo Mansur / Fotos: Renato Grimm De quem é esse lugar? - Os fazendeiros criam gado. Os pescadores vivem dos peixes. E 40 mil aves dependem deste parque nacional gaúcho para garantir seu alimento. Uma disputa que está longe de acabar .
- No site do Ibama, informa-se que o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul, foi criado com o objetivo de "proteger ecossistemas litorâneos e espécies de aves migratórias que dependem da área para seu ciclo vital, como também para fins científicos, culturais e recreativos". Pois bem. O parque está prestes a completar 17 anos de existência e tudo isso não passa de ficção. No mundo real, o lugar sofre com o impacto ambiental causado pelo gado das fazendas da região, é explorado por pescadores clandestinos, pesquisadores são espécie rara e o ecoturismo é praticamente nulo - menos de 500 visitantes por ano. Nem a idéia de que o parque pertence ao governo federal é válida, já que 73% da área é de fazendeiros. A estrutura que o Ibama mantém no local torna o cenário ainda mais grave. São apenas 19 pessoas, da chefia aos agentes de campo, responsáveis por cuidar de uma área de 344 quilômetros quadrados - maior que a cidade de Salvador, na Bahia - de praias, dunas, matas e banhados. E já foi muito pior. "Até outubro do ano passado, éramos apenas três funcionários", lembra Edair Corteletti, chefe-adjunta do parque. - - Briga pelos camarões -
Nem todo esse trabalho foi suficiente para aplacar o ânimo dos antigos moradores. "O que deveria ser algo positivo, acabou virando um problema", analisa Renato Carvalho. O parque surgiu como uma ameaça ao povo da região, acostumado a ter na pesca dos peixes e principalmente do camarão-rosa, abundante na lagoa, sua mais importante fonte de sustento. Na tentativa de minimizar o embate, o Ibama cadastrou 167 pescadores, autorizando-os a pescar na lagoa, mas apenas durante o verão - de dezembro a março - e em quantidades determinadas pela administração do parque. O controle, importante para a conservação da lagoa e imprescindível para assegurar o alimento das aves, reduziu a renda dos pescadores e gerou um grave problema. "Nossos maiores inimigos são os pescadores ilegais, que não têm autorização para pescar na Lagoa do Peixe, mas sempre estão por lá", diz Edair Corteletti, do Ibama. As estimativas são de que haja mais de 5 mil pescadores trabalhando ilegalmente no local. Trocando em miúdos, para cada pescador credenciado há 30 clandestinos. -
Do Brasil ao Ártico
- A despeito de todos os problemas, as aves continuam povoando a Lagoa do Peixe, um dos mais importantes refúgios de pássaros migratórios da América do Sul. Com águas limpas e rasas e 35 quilômetros de extensão, é o ambiente perfeito para a reprodução de algas, peixes e crustáceos. Tudo isso faz com que cerca de 40 mil aves - a maioria vinda dos extremos norte e sul do continente - utilizem a lagoa como parada para descanso e alimentação. O maçarico-branco, por exemplo, é uma das 22 espécies de aves migratórias que todos os anos visitam a Lagoa do Peixe. Após aproveitar o verão do sul do Brasil, o maçarico-branco deixa a região e inicia uma longa viagem de 20 mil quilômetros até o Ártico. O percurso é realizado em cerca de um mês, numa média de quase 30 quilômetros por hora. "Nessas viagens, o esforço do animal é tremendo", observa o biólogo Leonardo Vianna. "Alguns pássaros chegam a perder 50% do seu peso. Sem a quantidade adequada de alimento, os bichos podem até morrer no meio do caminho."
A riqueza da lagoa está intrinsicamente ligada ao ciclo das águas. No inverno, elas transbordam e alagam os campos à sua volta - os banhados. É quando os pescadores abrem o que eles chamam de Barra da Lagoa, um canal que liga o mar à Lagoa do Peixe. Junto com as águas do oceano entram as larvas de camarão. O fundo da lagoa, cuja lama é rica em fosfato, é o local ideal para os camarões se alimentarem e crescer. Cessado o período das chuvas, o nível da lagoa volta ao normal, a barra fecha naturalmente e a Lagoa do Peixe vira um gigantesco viveiro de camarão-rosa ao ar livre, atraindo aves e pescadores. O mais antigo registro de que se tem notícia sobre a abertura da barra da lagoa é de 1895, época em que os pescadores utilizavam as próprias mãos e pás para fazer o trabalho. Atualmente, o canal é aberto por escavadeiras. Até hoje, o Ibama não tem idéia do impacto ambiental causado por essa prática. "Acreditamos que afete, de alguma forma, o ciclo de vida dos camarões e das aves. Mas nunca foi feito nenhum estudo sobre isso", diz Edair Corteletti.
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O parque
dos fazendeiros-
Outro fator que interfere diretamente na conservação da área são as fazendas. Exatos 73% de todas as terras protegidas pelo Parque Nacional da Lagoa do Peixe são de fazendeiros. "E nem dá para culpá-los de invasão, pois eles já estavam na região muito antes de o governo criar o parque", destaca Renato Carvalho, do Nema. O fato é que, por mais paradoxal que pareça, a área pertence muito mais aos fazendeiros que ao governo federal. "Eu estou aqui há apenas 15 anos, mas algumas famílias já têm propriedades nessa região há mais de 80 anos", diz o fazendeiro gaúcho Renato Bender, 51 anos, dono da Fazenda Boiadeiro. "Como é que o governo pode chegar de uma hora para outra e dizer que eu não posso mais criar meus bichos na terra que comprei com o suor do meu trabalho?", questiona.
O problema das fazendas é que os bois costumam tomar banho na água salobra da lagoa e defecar nas dunas. Como as propriedades estão dentro do parque - e vice-versa - e muitas delas não são totalmente cercadas, é comum ver os animais pastando livremente na área. E essa situação não tem prazo para terminar, já que os fazendeiros não querem sair da região e o Ibama ainda não tem verbas para indenizar todos eles. Mas nem tudo está perdido. "A presença das aves indica que, apesar das agressões, a região da Lagoa do Peixe está resistindo a tudo de errado que acontece ali", analisa o oceanólogo gaúcho Renato Carvalho. Só não se sabe até quando.
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