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a 11/07 - Parque Nacional do Caparaó - Pico da Bandeira
Há tempos que eu assistia alguns programas de TV, onde
apareciam pessoas fazendo o trekking ao Pico da Bandeira, com
água na boca. Acredito que depois de Lençóis
Maranhenses, era o lugar que mais tinha vontade de conhecer.
E lá estávamos nós, em Alto Caparaó,
cidade sede do parque do lado mineiro. Ficamos na Pousada
do Rui, onde fomos SUPER bem recebidos pelo Rui e pela
Ilsa. Só o feijão da Ilsa vale uma visita
à cidade!
No primeiro dia, descobrimos que há muito mais para ver
e conhecer na cidade do que simplesmente o Pico da Bandeira.
Dentro dos limites do parque, visitamos o Vale Verde, a Tronqueira
e o Vale Encantado.
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O vale Verde fica próximo à portaria e
é uma sucessão de pequenas cachoeirinhas que formam
deliciosos poços para banho. Como o nome já diz,
o vale é repleto de árvores que fazem sombra e
deixam a água ainda mais gelada. Apesar da enorme vontade,
não tivemos coragem de experimentá-la para ver
se era verdade.
Mais 5 km de carro por uma estrada de terra que corta o parque,
chegamos na Tronqueira, fim da linha para veículos. Dali
podíamos ver a cidade de Alto Caparaó bem lá
embaixo e a sucessão de serras a perder de vista. O lugar
é ótimo para acampar, mas como a gente só
tinha ido passar o dia, logo arrumamos um lugarzinho para almoçar.
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O Vale Encantado, bem próximo à Tronqueira
e só acessível a pé, é como o Vale
Verde, com a diferença que ali o sol toma conta do lugar.
Aquela água incrivelmente cristalina era um convite e
resolvi encarar um banho! Foi muito rápido, mas saí
dali com as energias recarregadas!
Trilha
para o Pico da Bandeira - subida até 2.890 mt
Terceiro pico mais alto do Brasil
A
manhã do dia seguinte foi meio estranha. Acordamos às
07:30, tomamos café, voltamos para o quarto e cochilamos
mais um pouco. Isso nunca acontece! Parecia que não queríamos
sair da cama, que queríamos prolongar ao máximo
aqueles momentos de modo que nunca chegasse a hora do meio-dia.
Tínhamos combinado com o guia Josias para começarmos
a caminhada para o Abrigo Terreirão (metade do caminho
para o Pico da Bandeira) às 14 horas. Na realidade, acho
que estávamos meio apreensivos pela caminhada. Terceiro
mais alto pico do Brasil, o título impõe respeito.
Lá no fundo nos questionávamos se seríamos
capazes dessa empreitada.
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Subimos
com uma mochila grande cada um (+/- 18 kg) e o Josias levou
mais uma pequena para nós. A caminhada até o pico
é feita em duas etapas, dividida em dois trechos (de
subida!) de 4,5 km cada um. Pode-se fazer tudo num dia só,
saindo bem cedo e chegando já à noitinha na Tronqueira.
Mas é um tirão puxado demais. Cansa-se muito e
aproveita-se muito pouco do visual. A outra opção,
mais interessante e que acabamos fazendo, é subir à
tarde, pernoitar na área do Terreirão e sair de
madrugada (mais precisamente às 3 da manhã!) para
percorrer os 4,5 km restantes e se deliciar com o nascer do
sol lá de cima. No entanto, ainda tem gente mais louca
que começa a caminhar às 21 horas, chega no Terreirão
às 24:00, descansa um pouco e recomeça a caminhar
às 3 da manhã.
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Ambos
os trechos são de subida (sempre em subida!). Para-se muito
para tomar fôlego, respirar fundo, bebericar um pouco de
água e seguir adiante. Acho que estávamos esperando
algo tão difícil que nos surpreendemos com a trilha.
Apesar de ser relativamente íngreme, caminhamos em um passo
super tranqüilo e pode-se dizer que foi relativamente fácil
(mesmo carregando a mochila!). Passaram por nós vários
grupos que caminhavam sem mochilas, pois as mandaram pelas mulas.
É uma opção para aqueles que não estão
muito habituados a caminhar! À cada parada, era só
olhar para trás e ver as cidadezinhas que iam aparecendo
lá embaixo e a cadeia de montanhas que ia se descortinando
ainda mais no horizonte. |
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Tínhamos
reservado o Abrigo Terreirão para nós. É
uma casa com dois ambientes grandes, onde cada um se ajeita
como quiser. Existem alguns colchões velhos, mas suas
condições eram bem precárias e resolvemos
contar com os nossos isolantes, os quais colocamos sobre ¨bancadas¨
de concreto que servem como camas. Naquilo que se chama de sala,
há um fogão à lenha (meio incoerente, já
que não se pode queimar lenha em um parque nacional!),
uma mesa e bancos de concreto. Luz, nem pensar! Banheiro, lá
fora em uma construção ao lado da casa. O que
não entendemos é que, mesmo com a instalação
para energia solar toda feita, ela não era utilizada.
Talvez estivesse estragada. Ou seja, banho só frio, ou
melhor, só gelado. A água saía quase como
pedras de gelo. O banho talvez tenha sido mais difícil
que a própria subida. Além do abrigo e do prédio
dos banheiros, ali há outra construção
que pode ser utilizada gratuitamente pelos caminhantes para
pernoite. Só que, se o nosso abrigo já era bem
simples, imagine esse outro! Para quem não consegue ficar
em um lugar ou em outro, o jeito é acampar. E espaço
é o que não falta! Naquele resto de dia, nos deliciamos
com o pôr-do-sol. À noite, jantamos cedo, o Josias
nos fez um chá de poejo e fomos dormir bem cedinho. Inacreditavelmente,
acordamos às 02:45! E, em menos de meia hora, já
estávamos iniciando a 2ª parte da jornada. Caminhar
à noite foi muito bonito e (acreditem ou não)
incrivelmente fácil (esperávamos algo bem mais
complicado!).
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Como a subida
é ainda mais íngreme, fazíamos várias
paradas, onde desligávamos as lanternas e só ficávamos
admirando as estrelas. A lua era cheia e por pouco não
fomos caminhando só com a luz do luar. O frio ia aumentando
a cada passo. Quando chegamos ao topo, ainda escuro, o frio estava
bem intenso. Sorte que levamos junto tudo de mais quente que tínhamos.
Nos abrigamos e começamos a contagem regressiva para ver
o show do nascer do sol. A mistura da noite com o dia chegando
talvez seja o mais bonito. O céu não sabe mais se
continua escuro ou se se deixa pintar de cor-de-laranja. Só
quem já esteve lá em cima (e nessa hora!) pode entender
a beleza daquele momento. Naquela hora, provavelmente não
havia ninguém no Brasil em um lugar mais alto do que nós
(afinal, é muito pouco provável que alguém
esteja em cima do Pico da Neblina ou do 31 de Março naquele
mesmo dia!). A sensação é de estar quase
voando, bem próximo das nuvens, quase tocando o infinito
do céu. Lindo! Dali, descemos um pouco e fomos ao Pico
do Calçado, de onde se tem vistas igualmente bonitas e
vê-se o Pico do Cristal. Por incrível que pareça,
a descida foi mais complicada, os joelhos reclamaram bastante.
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Quando
chegamos no Terreirão, resolvemos passar mais
uma noite. Durante aquele dia, passamos o tempo vendo o vai-e-vem
de pessoas subindo ao pico. O tempo demorou muito para passar.
Mas foi bom, pois só quando sentamos é que nos
demos conta do quão cansados estávamos. No meio
da tarde, o Renato começou a dizer que estava pensando
em subir de novo até o pico (e, o pior, sem guia, já
que o Josias já tinha descido!). Quando o Renato fala
que vai pensar, é que já está decidido.
Eu tinha decidido que ia deixá-lo ir sozinho. Se tínhamos
que nos perder, que nos perdêssemos os dois juntos. Para
nossa sorte, à meia-noite, ouvimos uma batida forte na
porta do abrigo. O Josias tinha subido novamente com um turista
e ia levá-lo às 3 da manhã para o pico.
Ainda bem! Quando começamos a caminhar às 03:00,
cada um estava se perguntando ¨o que estou fazendo aqui?
porque tinha que inventar de subir de novo?¨, mas nenhum
dava o braço a torcer e seguia confiante a caminhada.
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Como já conhecíamos o caminho, ele parecia cada
vez mais longo e interminável. O que nos salvou de uma
caminhada entediante foram as estórias que o João
(o turista que tinha vindo com o Josias) vinha nos contando
pelo caminho. Nesse dia, o vento estava insuportável
no topo, nos impedindo de ficar em pé. O frio, conseqüentemente,
estava de trincar os ossos. Mas, quando o sol apareceu, nos
esquecemos do frio e ficamos hipnotizados. Foi ainda mais bonito
do que na primeira vez.
Depois de algumas horas passadas no topo, descemos para o Terreirão,
arrumamos nossas coisas e começamos a caminhada de retorno
à Tronqueira, onde tínhamos deixado o carro três
dias atrás. O jipe continuava inteirinho e na Tronqueira
encontramos o Rui que ligou lá de cima para a pousada
pedindo para nos prepararem um almocinho. Fechamos com chave
de ouro nossos dias no Caparaó, com o sabor inigualável
do feijão da Ilsa.
OBS:
A trilha para o Pico da Bandeira engana muito. Ela parece fácil
e bem demarcada, mas basta um descuido para alguém se
perder. Nos dias em que ficamos lá, um homem resolveu
subir sozinho até o pico. Ficamos esperando ele descer,
mas nada. Soubemos no dia seguinte que ele tinha se perdido
e que tinha passado a noite (no frio intenso: ele estava só
de camiseta e bermuda!) perdido em algum lugar no Pico do Cristal.
Não economize, contrate um guia e aproveite ainda
mais o passeio
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Relato
do Jaime Alberto Ribeiro e da Simone
Se é verdade que a fé remove montanhas, Alto Caparaó
MG, tem bons atores para provar o ditado. No alto do Parque
Nacional, três dos dez picos mais altos do Brasil (Pico
da Bandeira, 2.890m; Pico do Calçado, 2.768m e Pico do
Cristal, 2.780m), quase trigêmeos, atraem a atenção
dos visitantes. Na parte de baixo, 25 igrejas, templos, capelas
e similares, dividem a fé de uma população
de pouco mais de cinco mil habitantes: são Presbiterianos,
Batistas, Batistas Betel, Deus é Amor, Fé e Libertação,
Maranata, e tantos outros, além, é claro dos tradicionais
Católicos. Haja pecado para tão pouca gente. E,
nós, com fé, aguardávamos na parte baixa
as condições ideais para a subida ao Pico da Bandeira,
ou seja, eu melhorar de uma gripe que me acompanhava desde Porto
Alegre. Finalmente, depois de um dia inteiro de repouso, chegou
a hora.
Lá vamos nós para uma subida, providencialmente
divida em duas partes. No primeiro dia iríamos até
o Terreirão, abrigo do Ibama, onde acamparíamos,
para na manhã seguinte, partir logo de madrugada para
o ataque final. No comando, Josias, um guia com conhecimento
de causa e nome bíblico para não dar chance ao
azar. Após uma primeira etapa tranqüila, mesmo com
nove quilos de equipamento nas costas - roupas e comida, fique
claro, pois a máquina fotográfica, compacta, pesa
menos de quatrocentos gramas, chegamos ao local do pernoite.
Foi nesse momento que as coisas começaram a sair diferente
do que tínhamos planejado. Apesar de sermos recebidos
no abrigo por uma Siriema pronta para 'fazer uma amizade"
o tempo que já não era bom começou a piorar.
Uma fina neblima, daquelas que prometem passar uma semana antes
de ir embora, chegou com o anoitecer. Embora trouxéssemos
capas de chuva, o programa principal, contemplar o nascer do
sol no alto do pico, estaria prejudicado.
E para confirmar mais um ditado de que desgraça não
vem sozinha, novas dificuldades - o fogareiro e a iluminação,
parte dos nove quilos, carinhosamente transportados desde o
início da trilha, teimavam em não funcionar. E
a chuva, nada de ir embora. Josias, inabalado, após recolher
"ecologicamente" um pouco de lenha no Parque, dava
início ao fogo salvador. Bom, com fogo, veio a comida,
já que não estávamos lá para brincadeira.
"Arroz de puta pobre" foi o cardápio, aplaudido
de pé, àquelas alturas, com o perdão do
trocadilho. Um chá de Poejo completava a janta e estávamos
prontos para dormir às 20h.
A alvorada foi às 2h, e ao conferir a situação
do tempo um susto: a única coisa com a qual nem ousávamos
sonhar acontecera: as estrelas cobriam o céu e prometiam
um amanher ensolarado, no mínimo. Café tomado,
entramos novamente em marcha, com Josias nos guiando na escuridão
e mostrando, literalmente o caminho das pedras. A sensação
de caminhar na escuridão da madrugada com as estrelas
cobrindo todo o firmamento, já que a lua não estava
no cenário, é simplesmente indescritível.
Víamos o contorno das montanhas, e a medida que nos aproximávamos,
o Pico parecia ficar mais distante, já que é no
final a subida é mais íngreme. A luz que antecede
o nascer do sol já tinha surgido e pensávamos
que não seria possível chegar ao pico antes dele
surgir. Porém, Josias com toda a calma, garantia que
o espetáculo não iniciaria sem nossa presença.
E assim foi, do alto do pico, por trás de um colchão
de nuvens, impávido colosso, surgia o sol. E a cada segundo
mudava a paisagem ao nosso redor. Extasiados nos sentíamos
testemunhas de algo que parecia ser único, e no entanto,
deve acontecer quase todos os dias. O pico não é
nem tão alto, não necessitamos escalá-lo,
apenas uma dura caminhada, mas mesmo assim compartilhávamos
uma sensação de atingir um objetivo.
Missão cumprida e ainda cheios de gás resolvemos
conhecer os outros dois picos irmãos: Calçado
e Cristal. O do Calçado é barbada, na verdade
tem-se que descer. O do Cristal não é a mesma
coisa. Não é tão alto quanto o Pico da
Bandeira mas a subida é mais íngreme e, considerando-se
que já era o terceiro, tornou-se o mais difícil.
De cima do Cristal é possível avistar Alto Caparaó
e provar que se a fé não move montanhas, ao menos
deixa elas mais perto de nós.
Agradecimentos
a condução precisa e bem-humorada do Josias e
as dicas do Renato e da Lú, que indicaram inúmeras
providências a serem tomadas, inclusive contratar o Josias.
Trilha
realizada em Outubro de 2004.
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