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Lajeado da Margarida


Texto de Jaime Ribeiro

Há três ou mais anos atrás, em um tempo em que o Grêmio ainda era um time da primeira divisão, a caminho do Cânion Fortaleza, encontramos o Roberto e a Suzi, em um supermercado de Cambará. Se já é incrível que em Cambará tenha um supermercado, e tem dois, mais incrível ainda foi encontrar dois dos nossos amigos fazendo lá o "rancho" para acampar. O acampamento deles seria em um lugar do qual até então, nunca tínhamos ouvido falar: Lajeado da Margarida. Voltamos do Fortaleza e ficou guardada em nós a vontade de conhecer o lugar. E neste 15 de novembro, apesar da previsão do tempo que indicava chuva, a esperança venceu o medo e decidimos passar o feriadão no Lajeado.

Para ganhar terreno, saímos na sexta, e na sexta mesmo choveu, um tiro de advertência testando nossa tenacidade. O plano B seria, então, posto em prática: dormir uma noite numa pousada e seguir adiante, no outro dia, caso o tempo melhorasse, ou do contrário, voltar para a casa, com a revista da Net entre as pernas. Algumas páginas da Quatro Rodas adiante, escolhemos para passar a noite na Pousada Recanto dos Amigos, que fica na estrada para o Lajeado, a 3,5km do centro de Cambará, e a 6,5km do destino final. Pousada vazia, pudemos ouvir todas as histórias que o pessoal tinha para contar e faltava um dia de chuva para dar a chance.

Lajedo da Margarida - Renato Grimm

           

Nas histórias do Dinho e do Eduardo, respectivamente, patrão e capataz, até onça apareceu. E como diz o Rolando Boldrin, em toda a história de um mentiroso sempre há lugar para uma onça. Mas nesse caso não era mentira. Muito menos onça. Era o Leão Baio, possível de ser avistado na região. Não há fotos que comprovem, mas o que seriam das boas histórias se houvesse sempre a necessidade de fotos para confrontá-las. Em compensação tem algumas fotos de uma Jaguatiriga encurralada há alguns anos em uma reentrância de rocha e laçada pelos peões. Com o bicho dominado, até um vira-latas apareceu para morder a pata do felino e posar como valente para a posteridade. Não tão incrível quanto a Jaguatirica, mas não menos prazeroso foi saber que a simpática pousada (R$ 70, a diária para casal, com banheiro no quarto e café da manhã) tinha banho a gás. Bom, daí é que veio a nossa valentia em abandonar tudo isso e, café tomado, seguir adiante para completar os 6,5km que nos separavam do acampamento no Lajeado. O trecho de estrada é ruim o suficiente para espantar quem não gosta de pôr o carro em piso irregular, mas pode ser percorrido com calma em segunda marcha, sem maiores prejuízos para o automóvel, apesar de eu ter conseguido atolar no único lugar possível, na volta.

O visual do caminho - Os Campos de Cima da Serra, nessa época do ano, estão verdejantes com o pasto renovado pelas chuvas que recebem a água e transpiram pequenas flores, pontilhando o cenário com roxos, lilazes e um amarelo predominante das Marias-mole - flores do campo que acompanham as curvas da estrada e posam o tempo todo para fotos. Tudo isso, infelizmente, cada vez mais ameaçado pelo aumento do plantio do Pinus, triste conseqüência da decadência econômica da criação de gado. Criar gado já não rende muito, as pastagens não são produtivas. O Ibama, cumprindo seu papel e amparado em lei não permite mais as queimadas. Sem queimadas o pasto que já não é o melhor deixa de ser suficiente. Sem gado, o Pinus surge como alternativa. As mudas e a assistência técnica são distribuídas de graça. Quem pode esperar até 15 anos, período do primeiro corte, tem na Celulose Cambará comprador certo. Para tornar mais complexa a situação, existe a possibilidade de se aumentar a área do Parque dos Aparados, o que faz com que os fazendeiros apressem-se em plantar mais Pinus. É uma questão, sem dúvida, cheia de razões para todos os lados, mas com uma única vítima certa: a natureza dos Campos de Cima da Serra.

As pousadas que se atentem, pois acho que ninguém irá para lá para ver plantações de Pinus. Buenas, voltando a estrada, finalmente, chegamos ao Lajeado, que é simples e encantador. Ideal para passar uma tarde, ou três dias, como fizemos.Tendo a sorte de sermos, nesse período, os únicos moradores, curtindo as delícias de brincar de casinha em um gramado que parece ter sido produzido sob encomenda e tendo na alça de mira capões de mata nativa e o leito do rio com corredeiras suaves e borbulhantes. À noite ouvíamos, de vez em quando, barulhos de trovões, chuvas que não vinham. Percebemos mais tarde que o local era rota de aviões. Mais uma vez tivemos sorte no passeio, pois ficamos sabendo que o Lajeado da Margarida (nome da antiga proprietária das terras - versão de um também proprietário de terras próximas) não costuma ficar vazio, muito menos em feriados. Para quem não gosta de um contato tão íntimo com a natureza, ficar na pousada é uma boa opção, mas acampar é, sem dúvida, mais completo e intenso.

Para saber: o Lajeado é local de camping selvagem que fica a 10km do centro de Cambará.
Pousada Recanto dos Amigos
Tel. (54) 504 5277 ou (51) 9832 1615 com Dinho ou Silvana.
www.gtn.com.br/recantodosamigos