|
Nas histórias do Dinho e do Eduardo, respectivamente,
patrão e capataz, até onça apareceu. E como diz o
Rolando Boldrin, em toda a história de um mentiroso sempre há
lugar para uma onça. Mas nesse caso não era mentira. Muito
menos onça. Era o Leão Baio, possível de ser avistado
na região. Não há fotos que comprovem, mas o que
seriam das boas histórias se houvesse sempre a necessidade de fotos
para confrontá-las. Em compensação tem algumas fotos
de uma Jaguatiriga encurralada há alguns anos em uma reentrância
de rocha e laçada pelos peões. Com o bicho dominado, até
um vira-latas apareceu para morder a pata do felino e posar como valente
para a posteridade. Não tão incrível quanto a Jaguatirica,
mas não menos prazeroso foi saber que a simpática pousada
(R$ 70, a diária para casal, com banheiro no quarto e café
da manhã) tinha banho a gás. Bom, daí é que
veio a nossa valentia em abandonar tudo isso e, café tomado, seguir
adiante para completar os 6,5km que nos separavam do acampamento no Lajeado.
O trecho de estrada é ruim o suficiente para espantar quem não
gosta de pôr o carro em piso irregular, mas pode ser percorrido
com calma em segunda marcha, sem maiores prejuízos para o automóvel,
apesar de eu ter conseguido atolar no único lugar possível,
na volta.
O visual do caminho - Os Campos de Cima da Serra, nessa época do
ano, estão verdejantes com o pasto renovado pelas chuvas que recebem
a água e transpiram pequenas flores, pontilhando o cenário
com roxos, lilazes e um amarelo predominante das Marias-mole - flores
do campo que acompanham as curvas da estrada e posam o tempo todo para
fotos. Tudo isso, infelizmente, cada vez mais ameaçado pelo aumento
do plantio do Pinus, triste conseqüência da decadência
econômica da criação de gado. Criar gado já
não rende muito, as pastagens não são produtivas.
O Ibama, cumprindo seu papel e amparado em lei não permite mais
as queimadas. Sem queimadas o pasto que já não é
o melhor deixa de ser suficiente. Sem gado, o Pinus surge como alternativa.
As mudas e a assistência técnica são distribuídas
de graça. Quem pode esperar até 15 anos, período
do primeiro corte, tem na Celulose Cambará comprador certo. Para
tornar mais complexa a situação, existe a possibilidade
de se aumentar a área do Parque dos Aparados, o que faz com que
os fazendeiros apressem-se em plantar mais Pinus. É uma questão,
sem dúvida, cheia de razões para todos os lados, mas com
uma única vítima certa: a natureza dos Campos de Cima da
Serra.
As pousadas que se atentem, pois acho que ninguém irá para
lá para ver plantações de Pinus. Buenas, voltando
a estrada, finalmente, chegamos ao Lajeado, que é simples e encantador.
Ideal para passar uma tarde, ou três dias, como fizemos.Tendo a
sorte de sermos, nesse período, os únicos moradores, curtindo
as delícias de brincar de casinha em um gramado que parece ter
sido produzido sob encomenda e tendo na alça de mira capões
de mata nativa e o leito do rio com corredeiras suaves e borbulhantes.
À noite ouvíamos, de vez em quando, barulhos de trovões,
chuvas que não vinham. Percebemos mais tarde que o local era rota
de aviões. Mais uma vez tivemos sorte no passeio, pois ficamos
sabendo que o Lajeado da Margarida (nome da antiga proprietária
das terras - versão de um também proprietário de
terras próximas) não costuma ficar vazio, muito menos em
feriados. Para quem não gosta de um contato tão íntimo
com a natureza, ficar na pousada é uma boa opção,
mas acampar é, sem dúvida, mais completo e intenso.
Para
saber: o Lajeado é local de camping selvagem que fica a 10km do
centro de Cambará.
Pousada Recanto dos Amigos
Tel. (54) 504 5277 ou (51) 9832 1615 com Dinho ou Silvana.
www.gtn.com.br/recantodosamigos
|